A indústria de alimentos e bebidas faturou R$ 1,388 trilhão em 2025 e respondeu por 10,9% do PIB brasileiro, segundo a ABIA — um dos maiores parques produtivos do país, que movimenta 288 milhões de toneladas por ano. Por trás desse número há uma característica que define a operação e que costuma passar despercebida: a indústria alimentícia no Brasil não é um ponto, é uma cadeia inteira dentro de cada fábrica. Da recepção da matéria-prima à expedição do produto acabado, passando pela área úmida, pela câmara fria e até pelo resíduo, cada trecho da planta tem uma exigência sanitária e logística própria — e nenhum deles tolera improviso.
A Indústria Alimentícia no Brasil: o tamanho de um parque que alimenta o país
A escala do setor alimentício no Brasil deixa claro por que a operação interna virou um problema de engenharia sanitária. Além do faturamento de R$ 1,388 trilhão em 2025 — alta de 8,02% sobre o ano anterior —, o setor reúne cerca de 42 mil empresas, emprega 2,12 milhões de pessoas de forma direta e abastece, sobretudo, o próprio mercado interno: o consumo doméstico, somando varejo e food service, ficou em torno de R$ 1,02 trilhão em 2025 (ABIA). É uma indústria capilar, presente do grande complexo processador à pequena fábrica regional, e que produz, literalmente, o que o país come.
O peso no PIB — 10,9% em 2025, ante 10,8% em 2024 — coloca a alimentação entre os pilares da economia, mas o dado mais operacional é o da produção física: 288 milhões de toneladas por ano. Esse volume não se move sozinho. Ele atravessa recepção, processamento, embalagem, armazenagem refrigerada e expedição, e em cada etapa precisa de equipamento de movimentação compatível com a higiene que a vigilância sanitária cobra. Quando se multiplica 288 milhões de toneladas pela quantidade de manuseios que cada uma sofre dentro da fábrica, fica claro por que a escolha do equipamento certo, ponto a ponto, deixou de ser detalhe de almoxarifado.
A fábrica não é um ambiente, são vários
O erro mais caro na indústria de alimentos é tratar a planta como um ambiente único, com uma solução única de movimentação. Ela não é. A linha de produção opera sob Boas Práticas de Fabricação, com exigência de higiene contínua e de equipamento que não contamine. A área úmida — lavagem, processamento, descongelamento — vive de líquido escorrendo, e o piso precisa permanecer drenado e seguro. A câmara fria impõe o choque térmico e a baixa temperatura. O depósito exige estabilidade de carga e estoque organizado. A expedição pede padronização para o transporte. E há ainda o resíduo, que precisa ser separado e destinado conforme a operação cresce.
Cada um desses ambientes reprova um material diferente. A madeira, ainda usada em parte da cadeia, é o caso mais claro de incompatibilidade: absorve líquido e sangue, mofa na área úmida e na câmara fria, solta farpa e prego — risco de contaminação física — e se torna o ponto que a auditoria sanitária marca primeiro. O plástico injetado responde a esses ambientes por uma razão simples: não absorve, não retém odor, lava com água quente e sanitizante, e atravessa a câmara fria sem trincar. Mas nem todo plástico serve para todo ponto — o vazado que drena a área úmida não é o liso fechado da expedição, e o de câmara fria tem material próprio.
“Indústria alimentícia é cadeia inteira: linha de produção, depósito, câmara fria, expedição e até o resíduo. A gente dimensiona o pallet e a caixa certos para cada ponto — não existe ‘um pallet só’ que resolve a fábrica toda.” — Cassio Drudi, fundador da EkoPalete
Quem toca o alimento e quem não toca
Há uma distinção técnica que organiza toda a conversa sobre material na indústria de alimentos, e ignorá-la gera erro de auditoria. A norma da ANVISA que trata de material em contato com alimento — a RDC 56/2012, atualizada pela RDC 961/2025 — aplica-se ao item que efetivamente toca o produto: a embalagem primária, a caixa que recebe o alimento direto, o monobloco que carrega a polpa. Esse item precisa ser de material conforme a lista positiva de polímeros, com limites de migração controlados.
O pallet, na maior parte da fábrica, não toca o alimento: ele sustenta a carga já embalada em caixa, saco ou monobloco — é contato indireto. O que rege o pallet é a higiene da operação e o desempenho mecânico, não a norma de migração. Por isso, atribuir ao pallet genérico a RDC 56 é impreciso; o correto é vincular a norma ao item que toca o produto, e exigir do pallet o que de fato importa: que seja lavável, estável, sem farpa e compatível com o ambiente. Quando a aplicação exige um item de contato direto, aí sim entra o material em PP conforme a lista positiva — uma escolha por ponto, não uma generalização.
O teste diário é a higienização
Se há um momento em que o material do equipamento é posto à prova todos os dias na indústria de alimentos, é a higienização. Ao fim de cada turno, ou entre cada troca de produto, o equipamento que circulou pela área úmida e pela câmara fria precisa ser lavado — e a lavagem na indústria alimentícia não é delicada: envolve água quente, sanitizantes, em muitos casos cloro e soda, e jato de alta pressão. É um regime que destrói material inadequado em poucas semanas.
A madeira não sobrevive a esse ciclo: ela absorve a água da lavagem, não seca por dentro, mofa e se torna mais perigosa depois de lavada do que antes, porque retém umidade e resíduo na fibra. O metal enferruja sob o contato repetido com sanitizantes. O polipropileno injetado, ao contrário, foi feito para isso: não absorve líquido, não retém odor, resiste aos agentes de sanitização e ao jato de pressão, e seca rápido para voltar ao uso. Essa resistência à higienização agressiva é, no fim, o que separa um equipamento que dura anos de um que vira passivo sanitário em meses — e é uma propriedade que não aparece na nota de compra, só na operação do dia a dia.
Da proteína ao hortifruti: elos que têm casa própria
A indústria de alimentos é tão ampla que vários dos seus elos têm operação e regulação suficientemente específicas para serem tratados como cadeias à parte. A proteína animal — carne e pescado — opera sob a inspeção federal do MAPA, com o RIISPOA regendo a planta, a cadeia fria contínua e a habilitação de exportação; é um universo próprio, tratado em detalhe no setor frigorífico. O hortifruti pós-colheita tem a sua norma de caixa retornável e a sua lógica de drenagem e ventilação, com perdas que se decidem na embalagem certa. A exportação de alimentos, por sua vez, encontra a mesma barreira fitossanitária de qualquer carga: a madeira precisa de tratamento fitossanitário e marcação para cruzar a fronteira, pela ISPM-15, enquanto o plástico passa livre dessa etapa — e, num setor que exportou US$ 66,73 bilhões em alimentos e bebidas em 2025 (ABIA), cada gargalo removido na barreira conta.
Já os secos, cereais e farináceos operam sob as boas práticas do estabelecimento, com prioridade para estabilidade de carga e ausência de contaminação física; os processados e embutidos somam a exigência de material grau-alimentício no que toca o produto. O ponto a reter é que a indústria de alimentos não pede uma solução única: ela pede a solução certa para cada elo, e parte desses elos é grande o bastante para ter casa própria — com a logística da planta costurando todos eles.
Da expedição ao caminhão: padronização
Na ponta da expedição, a lógica da fábrica muda de natureza: não é mais higiene de área úmida, é padronização de carga. O produto acabado, já embalado e paletizado, precisa sair da planta em um formato que o caminhão, o rack do centro de distribuição e o contêiner de exportação reconheçam sem variação. É aqui que o pallet deixa de ser equipamento de processo e vira unidade de transporte, e a sua consistência dimensional determina a densidade de carga e a eficiência do embarque.
O desempenho do pallet nessa etapa é regido pela ABNT NBR 16242:2020, que classifica o equipamento por classe de carga e prevê ensaios estático, dinâmico e de rack — porque um pallet que cede sob o peso da carga paletizada compromete a estabilidade do palete inteiro e do que vem em cima dele no caminhão. Vale imaginar uma fábrica que despacha centenas de pallets por dia para múltiplos clientes: se o parque não é padronizado, cada destino recebe um formato diferente, o endereçamento trava e a operação perde a economia de escala. A padronização da expedição é, portanto, onde a fábrica de alimentos se conecta à malha logística do país — um tema que, por si só, tem operação e desafios próprios.
A câmara fria e o resíduo: as duas pontas esquecidas
Duas pontas da fábrica costumam ser tratadas como secundárias e, na prática, definem conformidade. A câmara fria é a mais óbvia: refrigerado e congelado convivem na mesma planta, e o equipamento precisa atravessar o ciclo térmico sem falhar. Por isso a família de câmara fria é fabricada por injeção, e não por rotomoldagem: só o processo injetado garante a tenacidade para enfrentar o congelado profundo, bem abaixo de zero, sem fragilizar no vaivém de temperatura. A madeira, nesse ambiente úmido e frio, simplesmente apodrece.
A outra ponta é o resíduo. Uma indústria que processa 288 milhões de toneladas por ano gera resíduo em volume, e destiná-lo corretamente passou de gentileza ambiental a exigência de auditoria e de relatório de sustentabilidade. Containers e equipamentos de coleta organizam essa ponta, e a economia circular fecha o ciclo do próprio equipamento plástico: o que quebra, em vez de virar lixo, pode retornar à cadeia de reciclagem por logística reversa, como no Programa de Troca 7:1, em que cada conjunto de sete unidades plásticas inservíveis, do mesmo tipo, devolvido à fábrica é trocado por uma peça nova. Para uma indústria desse porte, fechar o ciclo do equipamento é, ao mesmo tempo, redução de custo e comprovante para a pauta ESG.
No setor alimentício no Brasil, não existe um pallet que resolve a fábrica
Somando as pontas, o setor alimentício no Brasil em 2026 é um trilhão e meio de reais movido por uma operação que é, dentro de cada fábrica, uma sucessão de ambientes diferentes — produção, área úmida, câmara fria, depósito, expedição e resíduo —, cada um com a sua exigência sanitária e o seu material adequado. A lição operacional que atravessa tudo cabe numa frase, mas custa a colocar de pé: não existe um equipamento único que resolva a planta inteira; existe o equipamento certo para cada ponto, e a competência está em saber qual é qual.
Essa fragmentação por ambiente também explica por que a madeira persiste em parte da cadeia, apesar de tudo: ela é barata na compra e parece resolver de imediato. O custo, porém, não aparece na nota — aparece na auditoria que reprova, no lote contaminado, na caixa que mofa e na reposição frequente. Quando se soma o ciclo inteiro, do primeiro uso ao descarte, a conta se inverte, e o equipamento durável, lavável e adequado a cada ponto sai mais barato justamente porque dura, não contamina e volta ao ciclo no fim da vida útil. Numa indústria que move 288 milhões de toneladas por ano sob fiscalização sanitária, essa é a diferença entre operar com folga e operar contra a própria conformidade.
Para conhecer a linha pensada por ponto da fábrica — vazado para a área úmida, liso para a expedição, câmara fria injetada para o congelado, e os itens de piso, estrado e resíduo —, veja a linha para a indústria de alimentos.
Fontes e referências
- ABIA — faturamento, participação no PIB, empregos, produção física e exportação 2025 (release): abia.org.br
- Agência Brasil / EBC — reprodução do release ABIA 2025: agenciabrasil.ebc.com.br
- ANVISA — RDC 56/2012, atualizada pela RDC 961/2025 (material em contato com alimento): gov.br/anvisa
- ABNT — NBR 16242:2020 (paletes plásticos, desempenho): abntcatalogo.com.br





